Grande parte das famílias que desejam adotar preferem crianças sem irmãos, saudáveis e com idade entre 0 e 2 anos, esse é o chamado perfil clássico. Embora essa preferência seja predominante, pouco a pouco notamos mudanças nesse cenário sendo registradas por diversas varas de infância e juventude do país.
Há um aumento considerável de adoções envolvendo crianças com idade avançada, com graves problemas de saúde e em especial grupo de irmãos. Novas famílias que têm optado por perfis mais flexíveis e amplos, favorecendo assim a concretização de adoções diferenciadas em prazos mais encurtados e em números crescentes.
Esse novo perfil de adoção sinaliza que aos poucos a sociedade tem procurado rever o perfil clássico da criança desejada e se inclinado a conhecer melhor quem são os disponibilizados no Cadastro Nacional de Adoção.
Isso revela que o trabalho de conscientização e sensibilização realizado pelas varas da infância e juventude de todo o país tem resultado na gradativa substituição, no imaginário das famílias candidatas, da criança ideal pela criança real.
Quando se fala a palavra adoção, muitas dúvidas vêm à cabeça das pessoas, por esse motivo convidei Alice Silva* para compartilhar um pouco sobre a sua experiência e ajudar as pessoas que tem interesse a entender um pouco mais sobre esse assunto.
* Alice Silva é um nome fictício do personagem, que
preferiu não ser identificada.
Quando o casal decidiu optar pela adoção?
R. Decidimos em 2016 após passarmos por uma perda de uma gestação de 33 semanas.
Quais foram os primeiros passos enfrentados para adotar na sua comarca?
R. A minha comarca é muito pequena e enfrentamos muitos problemas, dificuldades, desinformação, má vontade de ajudar quem quer adotar, mas assim quem tivemos a certeza de que queríamos adotar fomos atrás de toda documentação exigida.
A princípio qual era o perfil pretendido da criança a ser adotada pelo casal?
R. 0(zero) a 3(três) anos somente uma criança.
Você aguardou por quanto tempo a criança dentro das características escolhidas?
R. 2 anos.
O que levou o casal a mudar de ideia e buscar por outro perfil?
R. Quando começamos a pensar na adoção não tínhamos ideia do quanto é difícil montar o perfil das escolhas que temos que fazer, na minha ignorância eu não me preparei para ir em busca de informação sobre o perfil, a minha vontade de ser mãe era tanta que eu só queria ser mãe e pronto, através do curso para pré-adoção que foi o divisor de águas em nossas vidas, os mitos foram quebrados e abrimos nossos corações para adoção tardia.
Dentre as características modificadas quando optaram por outro perfil, quais você considera que contribuíram para o sucesso do processo de adoção com relação ao tempo de espera?
R. Aceitação do grupo de irmãos e aceitação da adoção tardia.
Por que vocês pensaram nestas características inicialmente e por que decidiram mudá-las?
R. Tínhamos em nossos pensamentos que o bebê recém-nascido seria mais fácil de amar, mais fácil para educar. Queríamos ser os primeiros em tudo: ensinar, andar, falar etc. Fomos pegos de surpresa no curso para pré-adoção com tantas informações boas, relatos de famílias com grupos grandes de irmãos, isso tocou o nosso coração.
Se tivessem mantido as exigências iniciais e tivessem conseguido, quais diferenças você acredita que existiriam na relação pais e filhos?
R. Nenhuma diferença, mas a convivência seria diferente: iríamos começar tudo mais lento, mais devagar. A nossa demanda teve que ser um pouco mais ágil, na relação entre pais-e-filhos, creio que por conta da idade das crianças tivemos que nos adaptar mais rápido.
É possível que um perfil cercado de exigências pelas famílias que pretendem adotar é o que traz o ônus da longa espera?
R. Sim, no perfil você pode colocar muitas exigências, mas sendo os filhos biológicos podemos escolher cor de cabelo? Cor os olhos? Cor da pele? Doenças que vai ter??????????
Por isso é preciso saber o que cada pessoa espera da adoção.
Você acredita que a maioria prefere adotar crianças mais novas no intuito de passar a mensagem de que é um filho natural? Crê que pode haver um preconceito disfarçado nessa hipótese?
R. Isso é muito complexo, a adoção é ainda um assunto difícil de discutir, mas eu creio que quando o casal escolhe adotar um recém-nascido é o sonho de viver todas as fases da criança, é trocar a fralda, é acordar de madrugada, é ensinar andar e falar etc., e o preconceito é algo muito dolorido, muitas vezes ele está disfarçado dentro de nós.
Por que as famílias acreditam que adotar um adolescente, ou irmãos pode implicar em maiores dificuldades?
R. Temos em nossas mentes pequenas que os adolescentes já vão vir cheio de problemas cheio de marca de um passado difícil, porém a realidade não é bem essa.
Eles são como um recém-nascido querendo um colo, um abraço, uma mão para segurar e sentir que estão seguros e se os irmãos tiverem uma convivência boa acho não acho que tenha dificuldade.
O que os candidatos a pais adotivos precisam saber antes de acolher uma criança?
1º Saber se estão dispostos abrir a casa e o coração;
2º Pensar que você terá alguém que vai depender de você;
3º Se você vai ter tempo e dedicação com essa criança;
4º Estão dispostos a renunciar à vida pessoal, social e financeira;
5º Se estará disposto a lutar para ajudá-los a viver o presente diferente do passado;
6º Saber que a bagagem dessa criança é muito grande, muito dolorida que irá precisar de muito amor paciência e disciplina.
Adotaria novamente? Qual a sua mensagem de apoio a adoção?
R. Adotaria novamente? Simmmmmmmmmmm!!
Qual a sua mensagem de apoio a adoção? Não desista do sonho de ser família, família seja formada por dois pais, duas mães, ou um pai(solo), ou uma mãe(solo).
Adoção é um caminho muito longo a ser percorrido, mas não desista que é um amor sem limites. Hoje posso dizer que sou a mãe mais feliz desse universo, é um encontro de alma, não foi gerado por mim, mas foram feitos para mim.
Meu trio chegou em casa composto por uma menina de 12 anos, uma menina de 8 anos e menino de 5 anos, estamos três anos juntos! Não é perfeito, não vivo em um mar de rosas, porém foi a minha melhor decisão.
Recomendo aos futuros pais que leiam muito sobre adoção, que participem de grupos de apoio, que não absorva comentários desnecessários e nunca pense que não são pais de verdade.
O amor é construído aos poucos, dia a dia!